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Checklist de encontros invisíveis

Para cada momento que não quis registrar, há uma história que me recuso esquecer
Checklist de encontros invisíveis

Possuo uma relação curiosa com gente famosa. Por mais que eu goste muito de um artista, nunca fui de correr atrás de autógrafos, fotos ou ficar de conversa fiada para trocar duas palavras com uma celebridade que, do nada, surgiu no mesmo espaço que o meu.

Na minha cabeça, ou ela já está de saco cheio de tanta gente lhe incomodando — e eu não vou ser mais um — ou a pessoa se acha tanto que eu me recuso a dar alguma moral. Leonino, todo.

uma maquina de datilografar acimpa do titulo da newsletter: Imagina Só - M.S.Melo
https://marciosmelo.substack.com

Assisto a reportagens de adolescentes dormindo em barracas ou passando horas em aeroportos para espernear por uma figura usando óculos escuros na madrugada com a mesma indignação de um senhor de 120 anos.

Isso resume meu sentimento com a fama ou pessoas famosas, e não tem nada a ver com o que acho que deva ser certo cada um pensar ou fazer. Nada contra quem goste de idolatrar, correr atrás e registrar momentos com artistas ou criadores de conteúdo que balançam a cabeça numa janelinha no canto de vídeos produzidos por outros ou sei lá o que vocês, JOVENS, fazem hoje em dia na rede mundial de computadores (e celulares).

Malemolente como sou, vez ou outra me pego em contradição. Sinto falta de não ter registrado algum momento que tive com uma criatura ilustre. Meu maior medo é que os anos passem, as telas infinitas continuem rolando, e eu esqueça de todas as celebridades que já me bati por aí. Existe um vazio em mim que se originou da falta de um checklist particular para ir ticando as figuras prestigiosas que já vi de perto.

Não lembro nem da metade das pessoas famosas que estiveram a centímetros de mim, dividindo o mesmo ar que eu, aposto. Talvez seja melhor assim. Pelo menos eu mantenho o meu ponto. E sabe o que ganho com isso?

um homem careca de oculos ao lado de um babaca branco como ele, os dois usam terno, e o babaca careca faz um gesto com as mãos e diz nothing
Nada!

Não é uma questão de mais valia do viver, nem de autenticidade. Sou uma pessoa tímida que vive sobre a égide de não incomodar os outros, não dar trabalho pra ninguém (já assisti a um filme 3D sem Óculos 3D para não ter que reclamar com a moça que me pediu para ir sentando, dizendo que já traria os óculos. Até hoje espero). Viver assim me coloca num lugar especial, numa prateleirinha limpa no canto da sala que ninguém vai reparar. E sabe o que eu tenho mais do que você que está me lendo?

Não, não é isso. É preguiça.

Existe uma lista seleta de pessoas que não entram no meu caderninho do ranço, falo isso com muito gosto. Um artista que fiquei muito triste de não ter o registro é Otto, o cantor pernambucano. Na realidade eu tenho uma foto com ele, num hotel que uma marca de biscoito me hospedou na época. Nela estamos abraçados com uma penca de pessoas com quem nem contato eu tenho mais como se fôssemos uma equipe de handebol tirando foto pra alguma copa medíocre, com um sorriso pendurado em três segundos de vergonha. Essa eu nem gosto de ver. A foto que eu queria era outra. A da gente bebendo e falando trivialidades como se tivéssemos estudado juntos na mesma escolinha de bairro durante nossa infância. Conversando a respeito dos tubarões da Boa Viagem, sobre carnavais e os destilados mais insalubres que já encaramos. A foto foi registrada numa câmera digital HP de 3 mega pixels. Estamos abraçados, eu e Otto, em águas1, rindo. A foto linda que a pessoa que tirou me disse para não me preocupar que depois enviaria para mim foi tirada há quase quinze anos. E o pombo sujo2 nunca me mandou.

Passei o Carnaval em Recife e Olinda no ano de 2011 com tudo pago em hotel cinco estrelas por conta das besteiras que escrevia a respeito dos filmes que via nos cinemas em Salvador em um antigo blog meu que não existe mais.

Nesse mesmo dia, momentos antes de me gabar por já ter tomado um licor que Otto nunca havia experimentado — de Girame, num São João em Sapé3 — dividi elevador com Paulo Ricardo. Não fiz questão de dar moral pra ele, trato sempre como uma pessoa qualquer, as vezes finjo que nem sei quem é, outras tantas eu realmente não sei. Mas com Otto não. Porra, ele e Karina Buhr são as pessoas mais especiais de Pernambuco que tive a honra de trocar duas palavras.

Perceba, quanto mais a gente fala que não se importa, mas se revela que o sentimento, lá no fundo, é outro. Floyd explica. Não escrevi errado, é a banda mesmo.

Em uma noite, num desses jogos que o Vitória nos extirpa a vontade de continuar respirando, assisti nas arquibancadas de cimento do Manoel Barradas a partida com ninguém menos que Wagner Moura.

Casa cheia

Estava dois lances acima dele e de outras pessoas que o acompanharam. Estádio vazio. Cada hora alguém descia e pedia pra tirar uma foto com ele. Todos que foram comigo fizeram o mesmo, menos eu. Iimaginei que ele queria ver o jogo e devia estar já de saco cheio de tanto parar para sorrir e fazer pose. Ele sabia que no dia seguinte seria marcado no Instagram dezenas de vezes. Olha que sacanagem? Sim, nessa época dava para rolar o feed e ver coisas de seus amigos, saber quem lhe mandou um like e até existia-se, dentro das pessoas mundanas, a vontade de postar uma fotinha displicente com um filtro metido à besta para glamorizar a sua cena fuleira. Saudades.

Não, eu não vou fazer isso. Disse para mim mesmo diversas vezes. E adivinhem?

Sim, não fiz nada além de dar um aceno como se a gente fosse brother. Como se eu tivesse dado um tapa na pantera matando aula de mercadologia na UFBA com ele. Quase um beijo na boca se pensar bem. Só que nada disso aconteceu e o Vitória nesse dia, PASMEM, venceu e a minha vida insignificante seguiu na mesma vibração.

Quem sabe não seja essa a problemática raiz?

uma arquibancada vazia com um palco lá embaixo e um telão
Concha Acústica em dia de Rock

A vida segue, e a memória, traiçoeira, apaga os detalhes. A foto com Otto que nunca chegou; o dia em que meu primo,vestido de caçador, com uma espingarda de verdade, me acompanhou até Lauro de Freitas na casa de não sei quem para que ele pudesse queixar4 Pitty; a vez que bati no ombro de Selton Mello e ele, coitado, tomou um susto; o aceno mole para Wagner Moura. O dia que atravessei Salvador para ver o Mickey e sua turma mas não consegui ver foi porra de nada. Minhas lendas.

No fim, meu orgulho em não ser “mais um” me deixou muitas vezes de mãos vazias. E o medo crescente de que, um dia, essas histórias também se apaguem me fazem escrever. Registrar.

O verdadeiro prêmio da escrita não são os likes ou os gráficos que alguém criou para nos apontar o caminho impossível, mas sim ter algo concreto para nos lembrar que, por um instante, naquele frame da vida, dividimos um momento com alguém admirável. Ou insignificante, mas famosa.


  1. Estar em águas é para quem comeu muita água. Bebeu muito (bebidas alcoólicas) e ficou transtornado de bêbado. ↩

  2. Pessoa não confiável, que não vale nada. Enrolada, má influência. ↩

  3. Nome carinhoso e sem rima do Município de Sapeaçu, Bahia. ↩

  4. Queixar. Dar em cima, paquerar, flertar, ficar de frete. Passar uma cantada. ↩