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Nem sempre linear, mas sempre em movimento

Missões secundárias, rock progressivo e a jornada intergaláctica para fugir do Substack.
Nem sempre linear, mas sempre em movimento

Estou usando uma agenda para pessoas “esquecidinhas”. Na capa dela tem escrito: Nem sempre linear, mas sempre em movimento. Não poderia ter frase mais certeira para explicar a forma como a minha caixolinha funciona e ainda o fato de que estou arrumando as malas para sair em definitivo do Substack. Sim, vou partir à mil. Só que entre a vontade e a execução existe uma galáxia imensa recheada de missões secundárias.

Os meus circuitos neurais diferenciados me fazem transformar qualquer atividade em uma aventura com jornadas e passagens obrigatórias, sem as quais, eu não consigo seguir em frente. Na maioria das vezes eu crio sidequests para desvirtuar da chatice da missão principal. Ou do medo do fracasso, do desânimo que um caminho reto me causa, da preguiça de fazer tudo como manda o figurino.

Passei dezoito horas jogando poker no primeiro saloon que encontrei em Red Dead Redemption no Playstation 3. Tempo suficiente para completar a história do primeiro jogo da franquia de velho oeste. Eu olhava os cartazes pendurados com recompensas para capturar bandidos mequetrefes ou recebia convites de trabalhos “imperdíveis” para laçar cavalos numa fazenda com o mesmo entusiasmo de uma criança fazendo o dever de casa. Não, de jeito maneira vou me sujeitar a isso. O poker sempre era mais interessante.

uma agenda com a capa com adesivos de um leao, hora de aventura e o planeta saturno escrito nem sempre linear, mas sempre em movimento em cima de uma mesa ao lado de parte de um teclado
Minha agenda com uns adesivos nada a ver

Antes de fazer qualquer coisa eu preciso criar as condições certas para isso. As condições certas, por sua vez, possuem pré-requisitos. Os pré-requisitos também têm pré-requisitos. Em algum ponto desse emaranhado vai surgir a necessidade de se ter uma ferramenta específica, a qual, logicamente, eu não possuo e o projeto para. Não tem nada de errado ou absurdo nisso, pelo menos para mim. Isso é normal. Esse é o processo.

Quem olha de fora pode enxergar alguém improdutivo (seja lá o que isso signifique). Sem terminar um livro, sem publicar um texto novo, sem trocar a lâmpada embutida da varanda que queimou meses atrás com medo de estragar o teto de gesso rebaixado. Quem está fora do métier — ou não entende que a loucura tem método — vê alguém parado.

O rock progressivo existe porque três acordes não bastavam para contar certas histórias (mentira, foram as viagens de ácido). Músicas de mais de 10 minutos, mudança de tempo no meio da canção, introduções que não cabem nas métricas dos aplicativos de streaming musicais, álbuns que, inteiros, contam uma única história. Como um filme ou um livro, uma jornada épica.

Neil Peart, baterista e letrista do Rush que faleceu em 2020, tinha uma bateria do tamanho do mundo. Era uma verdadeira obra arquitetônica passível de ser tombada como patrimônio imaterial de qualquer nação. Mais de não sei quantas peças dispostas ao redor dele, num círculo perfeito. Um cockpit ou um altar? Aquela era a configuração que o permitia contar as histórias que ele queria tocar. Quando indagado sobre a sua bateria, Peart dizia que poderia montar “qualquer outra coisa”, o que, claro, era uma grande mentira, já que ele não montava qualquer coisa. Ele montava aquele monumento porque suas histórias pediam.

Uma bateria menor não tocaria Cygnus X-1 da mesma forma.

uma nave espacial viaja pela galaxia, desenho em preto e branco
Rocinante em Cygnus X-1 rumo ao buraco negro

Cygnus X-1 é uma música de 1977. São dez minutos e vinte e cinco segundos de duração. Começa com um ruído de nave e termina sem conclusão, com um “to be continued”, literalmente, no fim da faixa. A história da canção escrita por Peart foi ilustrada em quadrinhos por Dave Hornsby em 1979 numa edição da Marvel Comics chamada “Apocalipse”. Nela, um sujeito batiza sua nave de Rocinante e aponta ela pra um buraco negro do outro lado da galáxia.

Rocinante. Esse nome vem de Cervantes. Em espanhol, rocín é cavalo de carga, ante, anteriormente. Algo como “o que antes era um cavalo de carga”. Dom Quixote deu esse nome ao cavalo cansado que ele transformou em corcel de cavaleiro andante. Peart deu esse nome à nave que foi pro buraco negro. Os autores de uma das maiores séries de ficção científica já feitas, The Expanse, décadas depois, eram tão fãs de Rush que batizaram a nave principal da série com o mesmo nome — a Rocinante. Uma lata velha capenga, capturada, sem direito de estar voando, e que se tornou a maior esperança do sistema solar.

Cervantes virou Rush virou ficção científica. O elo criativo atravessou quatro séculos porque algumas histórias possuem uma imensa força gravitacional. Coisas abandonadas que são usadas por alguém de outra forma, que são apontadas para uma direção que nenhuma pessoa “comum” apontaria.

Toda essa introdução é para ajudar vocês a entenderem o meu processo de saída do Substack. Sim, estou abandonando isso aqui. Não vocês, nem minha escrita.

O Substack é uma excelente plataforma para quem não se incomoda de estar num local que financia certas visões de mundo. Eu me importo. Sabe aquele papo de sentar na mesa com um nazista? Sim, eu sou militante. Não, você não precisa ser. Cada um,cada um, cada lugar, um lugar (Negra Li e CBJr).

Eu poderia ir para qualquer outro lugar menos nazista e sem pessoas competindo por engajamento, chorando pitangas por números e gráficos que deveriam ser mais ascendentes ou que conversam como se estivessem performando no linquedinho.

A questão é que esse movimento seria simples. Fácil. Boring. Não teria textura.

Pesquisei alternativas e acabei indo parar no Ghost, uma plataforma de código aberto para criação de blogs, newsletters, sítios pessoais. Decidido que seria no Ghost, eu descobri que precisaria pagar para ter um puxadinho no site deles, mas isso custaria dinheiros. Muitos.

Ele é gratuito, o código, mas você precisa de um cercadinho para colocar sua fazendinha comunista. O serviço de hospedagem que possuo não comporta essa parada, eu precisaria contratar uma VPS que, resumidamente quer dizer: mais dinheiros. É caro, não me serve.

A única solução possível acabou sendo o self-host. Eu poderia montar meu próprio servidor. Pronto, essa era a resposta, o projeto da salvação, a minha jornada intergaláctica com intermináveis minutos de introdução instrumental até o cantor soltar o primeiro gemido.

Eu poderia, para isso, usar minha Orange Pi, um minicomputador que uso como máquina de escrever digital. Em uns vinte minutos eu poderia resolver isso na minha plaquinha computacional.

Vinte minutos? Isso é humilhante.

uma bateria imensa, fechado em um hexagono, vista de cima, a bateria usada por neil peart no rush
A bateria de Neil Peart do Rush

Cavei no fundo do meu guarda-roupas, dentro de um saco plástico, dentro de uma caixa acrílica imensa, debaixo de cabos que nem sei mais pra que servem, e estava lá o meu Lenovo Z400. Meu antigo notebook que quebrou o teclado e a tela, mas ainda estava vivo. Ou quase isso.

A estrutura dele está se desmanchando em salitre. Abri ele e um pó de Chernobyl virou poeira atômica, mas a placa-mãe ainda respirava. Ela está pedindo para viver, para participar pelo menos uma última vez de mais uma aventura.

Tirei a placa com muito custo. Agora é só montar numa base de acrílico, limpar com álcool isopropílico, botar uma pasta térmica nova (que ainda vou comprar) e religar os fios soltos, como um Frankenstein. Trocando a bateria, deixando o botão de ligar e o encaixe do carregador soltos, flutuantes.

Aí sim. Só quando terminar de recuperar essa placa, ligar num minimonitor auxiliar, instalar o Ghost, criar toda a estrutura de rede e segurança para torná-lo público na internet, aí sim eu poderei finalmente sair do Substack.

Claro, depois de decidir o template e pensar se levo ou não os meus textos daqui.

Só que para isso eu ainda preciso comprar algumas ferramentas, as ferramentas certas…

“…to be continued.”