A insuportável insistência do ser
No final do século passado, o Carnaval de Olinda proibiu o beijo. Isso mesmo. Foi assim que foi vendido e noticiado país afora o projeto de lei que proibia, na verdade, o beijo forçado nas ruas de Olinda durante os festejos carnavalescos.
Em Salvador, logo virou piada. A mania de disputar qual o melhor carnaval do nordeste (e, por consequência, do mundo) se tornou um chiste nas ruas da cidade. Para onde quer que você olhasse, sujeitos malhados seguravam mulheres à força, conversando duas horas se preciso fosse, para ganhar, no cansaço, um beijo e pontuar uma cartilha que se seguia por aqui. Errado? Precisaria melhorar muito para ser errado.
Não era algo exclusivo do carnaval, existia esse acerto entre os homens que para conseguir beijar uma moça a máxima era insistir. Encher o saco. Deixar ela sem saída, encurralada. “Elas fazem charme de propósito”, era o que mais se ouvia.
Eu não tinha paciência. Não era um cara à frente do tempo, nem politizado, nem correto. Eu apenas tinha preguiça. Logo desistia, não tinha nem conversa pra mais de trinta segundos e, de fato, eu não conseguia nem convencer a mim mesmo que era uma boa ideia me beijar, quiçá convencer outra pessoa.

Text within this block will maintain its original spacing when published“Se A beija B e B beija C, então A beija C?”
Sem entrar em detalhes da história do filme que concorreu ao Oscar recentemente por apresentar essa tática incrível onde a insistência é vendida como virtude, não como assédio moral, passei toda uma vida evitando pessoas insistentes. E mais do que nunca, evitando ser esse tipo de pessoa também. Na trama do longa-metragem, o protagonista esgota o oxigênio de qualquer ambiente assim que surge. Ele sai metralhando falas em cima de falas, argumentos em cima de argumentos e muitas bravatas.
Crescemos consumindo essa mentira em todo lugar. Dos desenhos animados onde o coiote nunca desiste, até as comédias românticas onde o cara que não aceita um “não” acaba ficando com a garota no final. A gente é treinado para acreditar que o esgotamento alheio é uma prova de amor ou de competência. Romantizamos o cerco. Acreditamos coletivamente que a muralha do outro não é um limite, mas um mero convite para a guerra.
O cinema até tentou dar um Oscar para essa tática de esgotamento, mas o mercado de varejo já a transformou em ciência. A insistência é um método de tortura muito específico que gourmetizaram com o nome de “case de sucesso”.

O que o pessoal ligado a marketing chama de “funil de vendas”, é o que me faz, todos os dias que vou aos shoppings, atravessar o corredor e passar longe de uma loja de cases de celular famosa. Eu atravesso mesmo, temo como o diabo foge da cruz, passo do outro lado com a bunda arrastando na parede para não ser pego de surpresa.
Não faz muito tempo que eu e conja caímos na armadilha de perguntar “Que promoção é essa?” numa dessas lojas e um Marty Supreme das películas premium titanium plus inquebráveis nos segurou por quase uma hora até nos vender uma capa de celular pelo quíntuplo do preço. O vendedor dominava a arte do contorno de objeções. Não existia deixa que ele não estivesse preparado para rebater, tudo tinha um caminho até o funil. Ele causou uma fadiga de decisão tão grande que beijar a maquininha com nosso cartão foi a nossa única rota de fuga. Saímos de lá com aquela sensação de, porra, como caímos nesse golpe?

Dos pequenos terrores modernos, um que eu mais tenho é o de ver uma loja com um time de vendedores na porta. Formando a muralha do constrangimento e da tortura da arte da insistência. E o filme me levou para esse lugar que não queria revisitar nunca mais. Tipo quem sai do home-office para o presencial ou híbrido. Você já esteve lá, sabe que não presta, mas não tem saída.
A vontade é de correr, mas correr para onde?
Tentam nos convencer a todo custo de que abandonar algo pela metade, incompleto, é uma falha de caráter. Uma fraqueza. Não caia nessa. Seja diante de um frete sufocante, de uma película que ofende sua paciência ou de um vendedor treinado para triturar a sua sanidade mental.
Não estou nem aí para listas em redes sociais, planilhas bonitas ou checkboxes que ficarão para sempre em aberto, sabe por quê?
Desistir é gostoso demais.
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