Salvador, Soterópolis e a Síndrome de Sheila
Sabe quando você está na rua e encontra alguém conhecido e sua alma abandona o corpo? Quando seu cérebro, por puro instinto, ativa o modo camaleão? Você não é um mutante com poderes extra-humanos, mesmo assim procura fundir-se com o ambiente. Não é má vontade. Você nem detesta (muito) aquela pessoa, tampouco está lhe devendo um Pix. É só uma falta de vontade que te come pelas beiradas.
A preguiça social enquanto arte é um estado fluído. A força necessária para acenar, sorrir ou, muito pior, ter que jogar conversa fora foi pro beleléu. Papo furado, amenidades, “tá com cara que vai chover hoje hein? É mesmo… Esse mormaço, né? Abafado demais.”. Parece bobo, mas tem dias que se torna um fardo pesado para lidar.
Sem dar a seta, você faz uma curva rápida e estratégica para a sessão de hortifrúti do supermercado, ou retorna para o corredor anterior. Fica ali, na cocó1, vendo para que lado a criatura vai. Se preciso for, larga o carrinho na sessão de potes e cacarecos e finge que a vitrine da loja do outro lado da rua está exibindo o quadro real da Monalisa. Ele é pequeno, ao contrário do que você imaginava, você precisa se aproximar para ver melhor.
Sua visão era perfeita até aquele instante, mas você se descobre subitamente míope. Pior, você se dá conta que seu astigmatismo chegou em 7.7 na escala Richter! E o resultado disso é que todos os rostos num raio de cinquenta metros estão borrados ou apagados.
Há quem chame isso de Síndrome da Dissimulação Tática ou micro esquiva social. Eu chamo de Síndrome de Sheila — não, não é nenhuma das antigas dançarinas do É o Tchan e nem aquela do vôlei, mas sim a jovem daquele desenho antigo, Caverna do Dragão. Nos anos 1980, além de charlar2 com aquela linda peça violeta esvoaçante, Sheila já nos ensinava que, muitas vezes, a melhor habilidade social é uma capa de invisibilidade.

No mundo real a invisibilidade é menos mágica e mais burocrática. Me atentei a isso lendo A Cidade e A Cidade de China Miéville. Um livro que começa um pouco difícil, mas que guarda em suas entrelinhas uma bíblia para a sobrevivência urbana.
Nele, duas metrópoles — Besźel e Ul Qoma — ocupam o mesmo espaço geográfico, mas seus moradores aprendem, desde sempre, a “desver” tudo o que pertence à outra cidade. É como estar nos bairros do Stiep e Costa Azul em Salvador. Universos paralelos que coexistem no mesmo lugar e ninguém sabe onde um começa e o outro termina. A depender de pra quem você pergunte, o mesmo pedaço de chão pode ser um ou outro. É como se olhar para o “lado errado” fosse um crime menor, mas ainda assim punível com interrogatório, papelada e desdém.
Outro bom exemplo é o centro histórico de Salvador. Apesar de ser um cartão postal, ele abriga dimensões paralelas. Santo Antônio Além do Carmo e o Pelourinho, gêmeos separados por ladeiras íngremes com aqueles paralelepípedos escorregadios. Olhar para o lado não é, por lei, proibido, mas é um perigo comparável a uma infração municipal. Como uma pessoa que fugiu para um bairro distante a fim de esquecer as amarguras da vida, mas acabou vendo um(a) colega de trabalho com uma figura B que não deveria estar ali. Sim, os beijos são de língua. Não, não são artistas.
É como se deparar com aquela sua tia que você prometeu ir na casa dela para dar uma olhada em sua impressora “assim que arrumar um tempinho” bem no seu dia de folga. Ela te viu sim. Logo você, que vende dieta restritiva no Instagram, mas está ali comendo espetinho de gato num beco escuro do Carmo. Ou seja, fudeu Maria Preá3.
🙈 Unseeing?
Antes de mergulhar nos três pilares científicos da esquiva soteropolitana — sim, vou conversar sobre astigmatismo, física quântica e portais dimensionais do Carnaval de Salvador — deixe-me tentar resumir Miéville para quem não leu o seu livro:
Desver é a arte de ignorar com a culpa de um espião duplo e a precisão de um vendedor de queijo coalho que corta seus produtos no meio fio da rua. E se você acha que isso é um exagero, nunca precisou evitar colegas chatos no meio do trio elétrico…
Eu já passei por isso, falo com propriedade. E eu estava do outro lado, eu era um dos chatos.
Salvador e Soterópolis são, ambas, as capitais de um mesmo estado de todos os santos encantos e axé. As cidades possuem suas próprias zonas de invisibilidade: os garçons nos bares e restaurantes são muitas vezes descritos como fantasmas; os ambulantes da praia fingem que não percebem a forma deplorável como são tratados pelos clientes; os artistas que pintam turistas com signos da Timbalada no Pelourinho driblam o bom senso da mesma forma que Matheuzinho, o maestro do Fatal Model Colossal Esporte Clube Vitória, passeia em campo. Os exemplos são infinitos.

A partir de experimentos empíricos e de todas as minhas observações e leituras, descrevo este tratado em três tópicos principais. Um estudo que não pode ser lido na UFBA ou em qualquer outro lugar porque ele nem existe. Ou melhor, ele existe sim, mas não aqui, e sempre que ele é encontrado, é preciso devê-lo.
1. O Fenômeno Urbano das Esquivas Sociais (Estudo) 🤗
Eu já comentei aqui como Salvador é perfeita para quem pretende fazer amizades, principalmente depois de uma certa idade. Apesar dessa energia que rola nas ruas, das pessoas que você topa por aí e lhe contam toda a sua vida sem você perguntar porra de nada, a Síndrome da Dissimulação Tácita, popularmente conhecida como Síndrome de Sheila, pode ser observada. Em algumas situações, inclusive, se faz necessária.
A(s) capital(is) baiana(s), assim como outras grandes cidades, possuem camadas que coexistem. A dos que cumprimentam todo mundo, e a dos que atravessam a rua para evitar convites para jantares em dias de domingo, compras de perfumes em bandejas de isopor, ou se associar a grupos de ciclistas. Basta saber desver ou micro esquivar-se. Por aqui, a gente chama isso de “Se Sair de Problema”4.

Esse é o pulo do gato: Salvador já pratica isso há séculos. Basta reparar como algumas pessoas atravessam as faixas de pedestre olhando pro chão como se a calçada fosse um tratado diplomático. Pois é: Miéville só formalizou o que todo soteropolitano sabe desde o descobrimento do óculos escuro às oito da noite.
2. A Geografia do Desvio (Fatos) 🏃🏾♀️
O prefeito que se auto intitula PIVETE DO CALABAR (uma localidade humilde e deveras perigosa), mesmo tendo claramente morado na Barra e não ter nenhuma cara de quem tem streetwise ou foi, algum dia, humilde na vida, aumentou em quase 600% o valor da tarifa do Elevador Lacerda. Para os turistas.
A decisão fez com que gringos e sulistas5 tenham que subir e descer entre as cidades alta e baixa sem se misturar. É uma espécie de sincretismo social para evitar o choque entre as camadas invisíveis da sociedade baiana.
Os turistas não enxergam os moradores, os moradores não enxergam as pessoas pedindo ajuda nas ruas e todos, sem exceção, fingimos não reconhecer aquela criatura que estudou com a gente décadas atrás para evitar a fadiga de relembrar o passado. Ou pior: adivinhar o seu nome.
Estudos, que não posso linkar aqui pois aconteceram na outra cidade, — a paralela, a que desvemos — indicam que 73% dos soteropolitanos já fingiram não reconhecer alguém no carnaval para evitar conversas esquisitas. Já para 95% dos turistas, não existe problema algum urinar na porta de alguém durante festejos populares, já que eles acontecem na rua e ninguém quer jogar conversa fora, bater na porta de um desconhecido, ouvir suas lamentações, tudo isso para solicitar usar o sanitário da pessoa. A complicação para conseguir sair sem precisar aceitar um convite para o café ou dar um tempo para não ficar na cara que você não está nem aí para aquela pessoa, só queria usar seus aposentos, é o maior empecilho.

Existem lugares que cobram para o uso do sanitário, mas 87% dos foliões se mostraram contrários a essa ideia. Segundo eles, o dinheiro precisa ser investido em álcool e outras substâncias não recomendadas no livro de Jeová. Já para 64% dos entrevistados, entrar num banheiro químico seria o mesmo que aceitar que a vida não tem sentido e o melhor seria mesmo ficar em casa.
3. Astigmatismo Social Quântico (Referências) 👓
Quando cursava Sistemas de Informação na Universidade Católica do Salvador, decidi investigar por que certas pessoas (como um colega nosso, Vico) conseguiam beijar de 30 a 50 bocas por dia, enquanto eu colecionava desdém, frases cortantes e olhares de “se enxergue menino”. Era como se todas as outras pessoas assumissem a Síndrome de Sheila ao me ver. Eu e um amigo cujo apelido vou evitar escrever neste horário, montamos um experimento social em meados dos anos 00: seguir Vico no bloco “Eu Vou” para decifrar suas táticas.
O plano era simples, observar o galante em ação e mimetizar todos os seus movimentos (zigue-zague dentro da corda do bloco, frases táticas de “vou pegar uma cerveja” seguida de tentativas de fuga), tudo isso para absorver o seu quantum seductus.
Só que a física quântica, essa ordinária, nos pregou uma peça. Pela Teoria da Observação Nubilosa, formulada por mim após sete horas perseguindo Vico pelo Campo Grande, “o ato de observar um fenômeno social ao lado do objeto observado altera o seu resultado”. Metaforicamente falando, Vico era um elétron livre (beijando 30 ou mais pessoas), mas nossa presença o transformou num próton estático como a gente: beijos = 0.
Claro, ele culpou o colapso da função que, se derivada, tenderia a menos infinito, por conta da minha ação ao apresentá-lo para algumas colegas minhas: “Você me apresentou com meu nome completo, porra! Ludovico não pega ninguém, aí você me quebra” (quanticamente falando).
Desver não é só ignorar pessoas, é apagar realidades inteiras. (MIÉVILLE, China),
Enquanto o bloco dançava ao som de Ricardo Chaves, Soterópolis (onde estávamos) se tornou um vácuo da sedução. O caso foi tão emblemático que a UFALBA (Universidade Federal do Astigmatismo Lúdico da Bahia) publicou um artigo chamado “Quando Você Vira a Sheila do Carnaval: Invisibilidade e Fiasco em Sistemas Caóticos”, citando Ludovico como “partícula perdida no espaço-tempo da terça-feira de Carnaval”.

É sabido que Salvador exige protocolos para além da compreensão rasa. Se este texto fosse um mapa de qualquer uma das capitais baianas, ele teria mais becos sem saída que a retórica dos conservadores fascistas (a redundância se faz necessária nas duas cidades).
A Cidade e a Cidade nos ensina que, às vezes, a melhor forma de enxergar é desver.
Treine o seu astigmatismo, assuma uma miopia que nunca teve, domine o zigue-zague geopolítico do Elevador Lacerda e, se tudo falhar, finja ser um turista que não fala português — ou melhor, seja a própria Sheila. Funciona para escapar de qualquer barca furada6: ex-colegas de escola, convites para jantares gratuitos em que vão lhe vender planos de hospedagem para lugares que você nunca irá e, mais ainda, “se sair” da própria física quântica.
E se você chegou até aqui se perguntando “que viagem é essa?”, saiba que foi exatamente isso que Ludovico me disse quando percebeu que eu e meu colega não desistiríamos de segui-lo naquele dia no Carnaval dentro de um bloco elitista soteropolitano (Vico, se estiver lendo isso me desculpe. Ou não. Desver é mais fácil).
Caso não consiga “desver¨ este post, amaldiçoe uma pessoa compartilhando ele. Seja você o próprio agente quântico.
🐊 Na cocó - Expressão derivada de “Crocodilagem”, estar na cocó é quando a figura assume uma posição estratégica de baixa visibilidade, semelhante a forma como os crocodilos se camuflam na água antes do bote fatal. Mais que um estado de prontidão sorrateira, estar na cocó é aguardar, tramar, maquinar, esperar o momento certo para agir. Seja num ato de criar uma cilada para outrem, uma enganação ou simplesmente a fina arte da dissimulação. ↩
🤳🏾 Charlar - Ato ou efeito de se sentir tão confortável a ponto de ultrapassar o limiar do bem-estar a fim de avançar para a zona da ostentação casual. Quem está charlando precisa demonstrar que ultrapassou os limites do bem estar. A pessoa desfila, esbanja confiança, interage como se fosse superior a todos os outros reles mortais. Não pode ser confundido com autoconfiança exacerbada já que, quem charla, está se sentindo em casa. Onde quer que esteja. ↩
😵 Fudeu Maria Preá - Também usado como Morreu Maria Preá, a expressão Fudeu Maria Preá é empregada quando alguma situação chegou ao seu ponto de não retorno. Não tem mais jeito, fudeu de verdade. É irreversível. Maria Preá, enquanto figura linguística, é o axioma do não tem mais jeito ou já era com dendê. ↩
📤 Se sair - Ato ou efeito de se eximir de uma situação, alegando não ser ela de sua responsabilidade e/ou culpa, podendo vir acompanhada, para maior ênfase, das expressões "de bolo" ou "de problema". Em outras palavras, é a velha instituição do “pular fora” de uma dificuldade, porém temperado com dendê e pimenta, aplicado à realidade baiana.
Quando colocada no modo imperativo implica em conselho, aviso ou mesmo ameaça. Exemplo [carrega no sotaque] se saia de problema, vu pivete? Num lhe diguénada! (LEAL, Lionel) ↩
🗺️ Sulistas - “Abaixo da linha do Tocantins, é tudo Sul” (MAXIMUS, André). Enquadramento geográfico não aleatório. Uma resposta direta ao olhar homogeneizador com que o Nordeste é tratado. Se para cima do mapa "somos todos nordestinos”, independentemente do estado (são nove!), para nós, do lado de cá, qualquer um abaixo do traço imaginário do Tocantins recebe o contra selo: sulista. Sudeste, Sul, Centro-Oeste? Tudo a mesma coisa. É apenas uma questão de reciprocidade, reparação histórica. ↩
🌊 Barca furada - Uma das expressões mais lúdicas baianas, a barca furada suplantou o estado de metáfora e se tornou literal durante as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil quando tentaram reconstruir uma réplica da Nau Capitânia. E o que aconteceu? Claro, o projeto não só atrasou como naufragou. Ou seja, mesmo com cinco séculos de avanço tecnológico, a barca furou. Mais literal que isso impossível.
Transcendendo do conceito, barca furada é aquele esquema duvidoso, aquela promessa vazia, o convite para um evento que já nasce fadado ao fracasso. Sabe quando aquele alarme soa na sua cabeça e você fica na dúvida? Desconfie: pode ser uma barca, ou esquema furado. ↩
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