Um boneco de cera derretido por um canhão de prótons num dia de alagamento urbano
O meu mapa mental é um emaranhado de vielas. Sem estradas largas pavimentadas com um destino sinalizado; são becos estreitos, cheios de curvas traiçoeiras, que se abrem quando a gente olha pro lado. E eu me perco nesses caminhos por puro vício. Entro numa rua atrás de inspiração para escrever, dobro uma esquina e já me vem a brilhante ideia de criar um baralho de arquétipos com decks numerados. Quando dou por mim, estou desparafusando notebooks abandonados, espanando poeira com uma escova de dentes velha e removendo as pedras de sal que o vento soprou do mar de salitre.
Como naquele desenho de gente velha, eu nunca encontro a saída. Mesmo rodeado de amigos, são os falsos profetas que me chamam a atenção. Retorno, abro outra passagem, inicio tudo outra vez. O destino é um conceito distante, que eu ainda não sei lidar. Destampo caixas de Pandora como quem abre latinhas de bebidas gaseificadas, só pelo estalo. Pela promessa de que, dessa vez, o que tem lá dentro vai me trazer a salvação.
Me meto a criar jogos em softwares de código livre que não passam da primeira tela. Desenho cartas de escrita com arquétipos que nunca vou usar, sigo no sonho de transformar meu lixo tecnológico em algo útil ao invés de apenas aniquilar o planeta jogando tudo fora. Existe um fetiche quase obsceno em fazer coisas e chamá-las de Arte. Não importa se é um rabisco ou uma escultura que parece um boneco de cera derretido por um canhão de prótons num dia de alagamento urbano. É minha arma contra a corrida desenfreada de viver online. Eu dobro tudo até não conseguir mais. Se vai ficar pronto, ou não, aí já são outros quinhentos.
Essa obsessão por novas formas às vezes me prega peças. Pouco antes da pandemia, passei semanas fissurado numa carteira estilosa. Ela não era feita de animais mortos e nem de plástico que imita couro. Era produzida com boas intenções ecológicas, designs bonitos e papel. Para mim era um artefato curioso, um origami do futuro. Como pode uma carteira de papel ser tão bonita e resistente? E cara.
O feitiço foi quebrado numa quarta-feira. Eu sei disso pois era dia de moqueca de arraia num cai duro que existia próximo a empresa metida a moderna que trabalhava. Descobri que um colega tinha uma e quando eu pedi para dar um saque [1] a realidade, essa ordinária, me deu um soco direto no queixo.
Ele puxou do bolso um amontoado dobrado, desbotado. Parecia jornal velho jogado no lixo da esquina, bem no dia que o caminhão de coleta não passa e três cachorros mijaram em cima. Não era um produto revolucionário, não ia salvar o mundo — até porque dependia de árvores derrubadas — era apenas um conceito descartável. Um cadáver de celulose suada, encardida, um resto de papel dobrado na calça, tal qual aqueles recibos impressos que guardamos para nunca precisar.
Talvez por isso eu escape tanto para filmes antigos. Não porque sou metido a cinéfilo e nem estou falando dos grandes clássicos. Em sua maioria são filmes banais, esquecidos porque não marcaram época nem porra de nada. Eu os assisto porque sinto falta da “ecologia do desaparecimento”. No século passado, as pessoas simplesmente sumiam. Não estou falando da ditadura, mas do fim do ano letivo ou de quando você voltava de um supermercado ou shopping center. Muitas pessoas que nos marcavam iam embora, saiam de cena e viravam mistério. Elas iam morar na nossa imaginação em tempos que se tinha espaço para esquecer, relembrar, descansar, vislumbrar. Viajar na maionese.
Reencontrar alguém era um evento raro que exigia tirar 2 ou 12 num arremesso duplo de dados de seis faces. Voltar para um novo ano letivo ou reencontrar pessoas anos depois era um evento antropológico. As pessoas mudavam de rosto, de alma. Elas envelheciam sem serem rastreadas.
Meu cotidiano é uma tentativa desesperada de recuperar essa lentidão. Preencho minha agenda para pessoas esquecidas e meus caderninhos com a paciência de quem cansa a mão pintando papel com tinta e entende que o tempo é um ciclo, não uma rodovia com rota direta ao “concluído”.
Passo os dias cuidando de cachorros ciumentos e que não sabem tomar conta de uma bebê com um fervor mitológico enquanto observo minha filha brincar. Ela ainda não foi infectada pela virose dos objetos brilhantes, afinal, para ela, tudo brilha. Ela brinca com uma violência e euforia que destoam de seu semblante sereno. A minha pequena não quer ser épica nem fantasiar pensamentos em textos cheios de metáforas vazias.
Ela é o próprio canhão de prótons, destruindo a ordem da casa para criar um universo novo e completo a cada dez minutos. Só dela. Não precisa enviar comprovantes em redes sociais, nem registrar em cartório. E eu? Continuo sentado aqui, entre um código mal escrito de um jogo que não roda e um projeto de baralho de cartas que não dita o futuro e nem me ajuda em porra nenhuma. Em outras abas eu escondo histórias sem fim, sem pé nem cabeça, sem personagens cativantes e que não começam in media res.
Concluo projetos por imprudência ou cansaço, o que vier primeiro. Chegar ao fim é como colocar a última pedra em um altar silencioso, é o que ancora a embarcação e dá peso ao nosso esforço. Só que antes de chegar em algum lugar, eu contemplo os rastros que vou deixando pelo caminho, as migalhas que serão levadas pelo vento que deixamos pelas vielas antes que nossos passos sejam apagados.

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